Estou tão cansada da imagem que o espelho me devolve quando o olho. Estou tão cansada da repugnância que sinto quando me vejo refletida em qualquer superfície - no computador quando estou em chamadas de vídeo, num vidro no qual descem gotas de chuva apressadas, numa piscina de água de um azul quase transparente que ondula como os meus pensamentos ao ver-me - que o meu sorriso, se existir, é-me brutalmente arrancado da face e atirado para longe, para tão longe que já não o consigo ver. E depois perguntam-me o que se passa, se fizeram algo para me deixar assim, tão triste e distante, procurando o meu sorriso. Claro, pois. Eu, como egoísta e estúpida criança que sou, não podia ser infeliz sem atrair mais pessoas para a onda negra que as trevas lançam sobre mim e na qual me afogo.
Estou legitimamente cansada de não ter a liberdade de fazer o que gosto sem ser invadida por esta infelicidade, porquê? Porque para onde quer que olhe, tudo o que vejo é beleza, tudo o que vejo é aquela ideia de perfeição que uns admiram, outros tentam alcançar. Confiança, beleza, formas. Sinto a necessidade de baixar a cabeça, frustrada, magoada.
Esta face persegue-me, este corpo assombra-me. Estes olhos escuros como a noite, boca seca como um deserto, estas mãos frias e braços magros, esta pele áspera e este formato que ninguém desejaria observar, muito menos possuir.
Estou cansada de ver beleza em tudo, exceto em mim.
Agarro os meus braços com força e esfrego-os. O vento chicoteia-me a face e faz-me cerrar os olhos com força, sinto as pingas da chuva feroz a escorrerem do meu cabelo encharcado e as minhas pernas tremem. Com medo de desfalecer, busco abrigo numa beira de estrada, debaixo daquele pequeno pano que por vezes cobre as portas de cafés e bares e que, nesta circunstância, tinha sido deixado aberto por desleixo ou pressa do dono.
Sento-me no chão, abraçando as pernas e espirrando. Não, não, cala-te! Não faças barulho.
Este fim de tarde é tão silencioso quanto frio. Ninguém te vê, ninguém te conhece, ninguém sabe...
Tiro do bolso um pequeno clip que caiu da sua pasta durante a aula. Agora que penso nisto, estarei a envolvê-la? Serei eu um ser terrível ao ponto de envolver a minha amada em tão mesquinho ato?
Com uma perícia desenvolvida ao longo de anos, enfio o clip na fechadura e procuro o sítio certo, que pressiono, e a porta abre-se.
Faço de dois saltos o meu movimento para trás do balcão. Dois pães secos, um croissant duro e um bolo de arroz. Abrindo os armários, encontro duas fatias de queijo, assim como uma de fiambre, e bebidas que de há tanto tempo ali estarem, já seriam intragáveis.
Retiro um pouco de uma fatia de queijo, deixando marcas como as que um rato faria, e pego na outra inteira. Apenas um pouco de fiambre e um pão, ninguém notará a diferença, e uma água, chega.
Esteve sempre assim tão frio?
Ligo a música no máximo mal chego a casa e me fecho no quarto. Despediramo-nos cedo sob o pretexto da chuva e dos trabalhos de casa para amanhã. Nunca tivera tantos trabalhos de casa na minha vida, que escola mais estúpida.
Elimino estes pensamentos quando pouso a ponta dos dedos sobre os lábios e sinto o toque dos dele, outra vez. Haveria melhor sentimento?
Pondo-me em bicos de pés, procuro pôr em prática o que aprendera há tanto tempo, em aulas de ballet para miúdas de cinco anos, em que eles sempre me procuraram inscrever, e eu odiava. Ponho-me em bicos de pés e levanto os braços, suavemente, procurando a harmonia e a graciosidade que nunca tivera. Que tolice, o que raio estou eu a fazer? Mas nem por isso abandonei a minha posição de bailarina, começando a mover as pernas, saltitando levemente de um lado para o outro. Sinto a ponta do meu pé direito a tocar-me na perna que acabava no esquerdo, equilibrado em pontas. Sobe até ficar preso no joelho, momento no qual abro os braços e inclino-me para trás, fazendo o meu tronco dar uma volta de 360º e voltando ao início na perfeição, tudo isto ao som de heavy metal... e provavelmente da felicidade que me deixava doida.
Dançando como nunca antes dançara, acabo a tropeçar num objeto redondo e pequeno que se abre.
E as lâminas afiadas tocam-me, de novo, desta vez sem eu querer.
Parva, ingénua criança, caíste outra vez. Quantas mais vezes precisarás de ser magoada até que aprendas a não confiar em ninguém?!
Este mundo, meu tesouro, não é para ti. Não mereces uma única batida do teu frágil coração, não mereces nem uma golfada de ar que os teus pulmões respiram. Essas tuas mãos gélidas não merecem tocar as flores suaves e delicadas que este mundo oferece, a tua boca amarga não merece saborear os doces frutos que crescem nas nuvens e a tua expressão horrenda não merece ser vislumbrada.
Mas se te foi concedido este dom de puderes pousar os teus pés nesta relva fofa e alegre, porque continuas a transformar essa relva em espadas metálicas que te atravessam a pele, estúpida mortal?!
Ah. Fazes-me suspirar de revolta quando te vejo refletida no espelho. Fazes-me querer magoar-te, castigar-te por te fazeres isso, por nos fazeres isto, por seres tu e não me deixares ser eu!
Obscenos títulos te atribuo na minha mente enquanto penso em como libertar-me deste corpo desfigurado que odeio com todas as forças. Não pertenço neste ser esperançoso de um mundo melhor, de uma vida maravilhosa cheia de flores e borboletas...
Não vai acontecer! Como te atreves, como te atreves, depois de tudo a que te submeteste, depois de tudo o que fizeste a ti mesma, como te atreves em pensar sequer em ser feliz? Como confias numa pessoa, como deixas que te magoem outra vez?
Espero que caias no abismo de uma vez, porque se não me podes libertar, pelo menos mata-me neste momento, enquanto não te possuo e altero por completo o mundo que conheces.
Sentados no alpendre, enrolados numa manta aos quadrados que poderia ser outra qualquer.
A minha cabeça vai abanando ao ritmo da tua voz, que me encanta. E quando hesitas na letra ajudo-te, cantando contigo.
De olhos fechados e com a cabeça no teu ombro, aprecio um momento que bem podia ser eterno. Temos um céu nublado acima das nossas cabeças, uma brisa fresca a acariciar-nos a face, a luz do luar a iluminar-nos o olhar, e sorrimos. Sorrimos porque nos temos um ao outro, e isso não basta?
Os meus lábios apertam os teus, a minha língua abraça a tua e o meu corpo anseia pelo teu. E no fim de cada beijo que me deixa sem fôlego, olhar para ti faz-me quase chorar de emoção, com a beleza do teu ser a enfeitiçar a noite que nos envolve neste momento único. Todos os teus traços me encantam, todos os aspetos do teu ser. Serás tu um anjo enviado na minha salvação?
Sorrio quando te levantas e me puxas para ti. Dançamos ao sabor do frio, ao som de nada, ao sentimento apaixonado que sentimos no coração. Tropeçamos e rimos, choramos e fugimos, pensando bem, foi assim que sempre foi, ou não?
Abraçados numa noite fria de março, sentimos os nossos corações a bater rapidamente, próximos, apaixonados, e perdemo-nos na imensidão do céu nublado.
Senti a sua mão fria na minha pele. Tão fria, tão pálida, tão morta, tão, tão... Enfraquecida e indomável, a minha flor-de-lótus. Baila as suas pétalas lindas ao sol, vai dançando sobre a água sem se deixar cair. Oh, que bela é a minha flor. Suas feições doces e firmes, puras e angelicais preenchem os meus sonhos de alegria, enquanto o seu elegante corpo de deusa completa as minhas fantasias secretas.
Enquanto caminho com a minha flor pouco antes de entrarmos o portão da escola, vejo-a sorrir e olhar para o chão, e aperto-lhe a mão com mais força. Com uma volta de pouco mais de noventa graus encontramo-nos de frente um para o outro, e num segundo aperto o corpo que tanto desejo contra mim, e com ele também a sua alma, a alma mais bonita que alguma vez tivera o prazer de encontrar.
- Vamos chegar atrasados.
- Não te preocupes com isso - e sorri, sorri ao olhar as esmeraldas que tanto amava. Porque não lho tinha dito ainda? Não sei. Estragaria realmente alguma coisa, dizer-lhe o que me vai na alma? - Olha...
- Sim?
Debato-me contra o nó na garganta e o nervosinho que me controla, até que sinto o meu corpo desistir daquela batalha:
- Tens razão. Vamos - e seguimos caminho.
Sinto um peso cair sobre o meu coração quando as palavras tão desejadas não vieram. Será que ele não se sentia seguro, será que não me amava? Dúvidas imensas percorrem o meu corpo que, só por si, não consistia em nada que ele parecesse querer. Oh, ele é tão lindo. O seu rosto de lutador é mais doce do que qualquer pessoa quer ver, e pelos seus olhos cor de âmbar vislumbrava uma alma que queria conhecer. Queria entrar no seu mundo, não como visitante, mas como algo constante. Queria ser o ar do mundo dele, essencial à sua vida. Queria o seu corpo, todas as suas formas que me enlouqueciam quando me tocava fosse como fosse, queria senti-lo apaixonado por mim. Demasiado para pedir?
Entrando na sala, soltámos as mãos e sentámo-nos lado a lado. Abrindo o meu caderno, comecei a escrever o sumário embora não me sentisse presente.
Quando o olhei, quando vi o seu cabelo selvagem a cair-lhe para a frente e tapar-lhe a visão, os seus olhos pousados na escrita, pensei porque me julgava capaz de ser portadora de uma felicidade tão preciosa como tê-lo só para mim. Como podia eu ser tão ambiciosa e doida a esse ponto? Humpft.
- Queria dizer-te uma coisa - sussurrei-lhe.
Ele lançou-me o seu olhar mais irresistível e vi os seus lábios doces a formarem um pequeno sorriso:
- Diz.
- Bem, eu já te quero dizer isto há muito, e, bem, não te consigo esconder mais - ia gaguejando isto com o olhar desviado, mas a minha voz que se torna aguda nas situações mais embaraçosas fugiu-me e fui interrompida pela professora:
- Vocês os dois, vão se calar ou vai ser preciso separar-vos?!
Calámo-nos. Mas vi-o rabiscar algo no canto do caderno, e espreitei, para me deparar com a sua letra preciosa a formar palavras que por mim foram imensamente desejadas: "Eu também te amo, flor."