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21.7.12

blue sky


Os meus olhos perdem-se na imensidão azul e deixo os pensamentos depressivos lá se afogarem.
Como é lindo. Índigo, celeste, turquesa. Tonalidades que se fundem com umas manchas de um branco quase transparente, dispondo-se em camadas, dançando à melodia do silêncio. 
Lá em cima, uma gaivota deixa-se também embalar descontraidamente por aquele vazio, tão cheio.
Calma. Paz. Sim, a qualquer pessoa o azul do céu transmitiria estas sensações, tão serenas, mas a mim transmite-me uma que supera todas as outras: amor.
Sim, o céu lembra-me de ti. Tudo me lembra de ti, está certo, e algo tão belo não poderia ser exceção. 
Ali, com a brisa suave a acariciar-me os poros e o sol brilhante a queimar-me a pele, revivo aqueles momentos passados contigo, a olhar o céu. De olhos semicerrados, mãos dadas, a partilhar um calor que não era inferior ao clima típico de verão, deitados na relva verde e fresca, ainda por cortar. Formas de nuvens se formavam em frente de nossos olhos, acima das nossas cabeças. Eu falava, tu escutavas, que combinação tão estranhamente perfeita. O som da minha voz oscilava com entusiasmo enquanto apontava as formas claras no céu e tu sorrias e fechavas os olhos. Ali sentíamos a felicidade, mais do que o ar que respirávamos, mais do que o sangue que nos circulava nas veias, conseguíamos sentir a felicidade palpável que explodia em nosos corações, a pureza do primeiro amor. E puxava-te para mim, buscando o conforto que sempre encontrei em teus lábios.
Ah, como é lindo, o azul do céu.

20.7.12

something or nothing at all


Tento parar a hemorragia transparente que me escorre pela face, com origem nos olhos, quais cataratas, com um ou dois lenços amassados, cor de nada.
As árvores lá fora bailam com o sopro desse tal de Deus. As aves, todas diferentes, deixam-se ser embaladas, voam para longe, como eu tanto gostava de fazer. Então por que não o faço? Talvez porque a minha vida está dominada por pedaços de papel, assim como a de todos os seres deste mundo, talvez até de outros, quem sabe?
É uma questão de hierarquia, de poder, de força. É uma questão de honra, ou pelo menos é isso em que nos querem fazer crer. Controlar-nos, manipular-nos. Porque é isso que esse papel nos faz: controla-nos. O que somos, o que merecemos, o que fazemos, o que podemos. O passado, o futuro e o presente como o conhecemos. 
Suspiro. É demasiado. Demasiada hipocrisia, demasiada incoerência. Sim, incoerência, porque o mundo contraria-se a si próprio. Factos, factos, factos, e na verdade, nenhum facto é um facto, porque há sempre que o contrarie, há sempre quem proponha uma alternativa a essa verdade. Abutres com fome de mentiras, sanguessugas com sede de morte.
Porquê? É a pergunta que se repete incansáveis vezes num remoinho dentro da minha cabeça. Oh, "porquê". Que pergunta tão covarde, tão medrosa, tão impotente e furiosa. Pergunta sem resposta e que se alimenta do silêncio. Oh, quem nunca fez essa pergunta? Quem nunca enrugou a testa esperando uma resposta que preenchesse todo aquele vazio? E, no final, nunca era obtida. 
E isto porquê?

13.7.12

as palavras - composição do exame


Palavras, doces como o mel, duras como espadas. Palavras graciosas como aviões de papel que têm o coração como destino. Palavras, meras palavras? Não, nada disso. O poder das palavras é inabalável, grotesco, chega até a ser perigoso. As palavras fazem a guerra, as palavras fazem a paz, mas, no entanto, não passam disso, palavras! Conjuntos de letras aglomeradas, organizadas por alguém que não podia ver, ou que via bem demais...
Seria impossível um ser carregado de tamanha covardia como os humanos, sim, esses que se acham donos do céu e da terra, pudesse acarretar em si um valor tão dolorosamente belo como o das palavras!
Por isso fecharam-nas. Numa gaveta apertada fecharam as grandes obras e os pequenos sonetos, rasgaram as veias da poesia e arrancaram as raízes da prosa. Quais livros? Qual escrita?! Largámos o maior tesouro que nos foi cedido e para quê?! Para não estarmos mais de dez segundos a cruzar polegares num bloco eletrónico frio e sem vida?! Onde foi a paixão?! Em que mar a afogámos e lá deixámos? Em que gaveta trancámos a maior das belezas, em que baloiço molhado de chuva abandonámos o livro?! Sim, o livro, sabem do que falo. O livro que acendeu mil e dois sorrisos no rosto de quem deixou cair mil e três lágrimas. O livro que não nos permite saltar páginas mas nos deixa reler o que ficou para trás, o livro que arde no peito e gela as veias, um livro sem capítulos nem páginas contadas!
Seremos nós guerreiros fortes o suficiente para trazer de volta as palavras?

1.7.12

alone in the night


Comecei a escrever e apaguei as palavras como se as tentasse afastar. E de novo o fiz, e novamente. 
Perdi a conta às lágrimas que deixaram um rasto ardente na minha face pálida e não sei descrever a cor exata das meias luas debaixo dos meus olhos. Nos meus lábios são abertas fendas como em mármore antiga. As minhas pestanas encharcadas pressionam a minha pele com força tentando parar as cascatas que brotam dos meus olhos, nos quais reina a escuridão.
Quando a tua presença não se manifesta o meu corpo parece reduzir o seu tamanho, mas não o suficiente para poder esconder-me num cantinho qualquer. Desta dor, desta mágoa, da mão gigante que me espreme o coração, que o esmaga, que o rasga até ficar sem sangue. Então por que razão não morro? Que propósito pode ter a minha vida insignificante para não me deixarem encontrar a paz?
Os meus demónios interiores ganham forma e força e, desta vez, não estás aqui para os combater. Uma espada flamejante não pende nas tuas costas nem uma lança mortal reside nas tuas mãos. Não estás aqui, não queres estar aqui. Vagueias sem mim nesse teu mundo à parte ao qual um dia pertenci... No qual um dia me quiseste.
Quando fecho suavemente os olhos, no silêncio da noite, consigo voltar a sentir os teus beijos apaixonados. Consigo sentir de novo a força com que a tua boca saboreou a minha e o meu corpo foi esmagado contra o teu, consigo reviver todas as emoções que me fizeste sentir...
Mas sempre que voltar a abrir os olhos, nada se fará sentir que não a tua ausência. Então porque não fechá-los para sempre?

27.5.12

o sabor da depressão

Prometi ao meu frágil coração despedaçado não tocar com a tinta gasta da caneta neste assunto, mas a sede de palavras obrigaram-me a depositar os meus sentimentos na minha, tão antiga, paixão.



Como uma esponja negra encharcada de sangue, espremeste o orgão, que sempre bateu por ti, como quem tira a vida a uma criança indefesa. Cada som por ti proferido pairou no ar, repetiu-se mil e uma vezes e deixou o eco a orbitar a minha mente.
O meu rosto, mais pálido do que mármore, deixa-se queimar pelas lágrimas que me escorrem na face. Sinto a pele desfazer-se e deixar transparecer quem realmente sou. Quem sempre fui e tentei esconder atrás de mil e um sorrisos, no medo a que este meu "eu" se revelasse no brilho do meu olhar. 
Enrolada no meu próprio corpo desprezível, sinto as palavras fluirem, arranhando as paredes do meu coração e arracando a pele de meu peito. As palavras doces e escorregadias como caramelo derretido, que me aqueciam o corpo da cabeça aos pés, transformaram-se em pregos negros e afiados, escuros e frios, que se espetam no peito com força, certeiros, e lá ficam a penetrar a minha carne. Toda eu sou dor e trevas, escuridão, morte. Toda eu estou envolvida numa aura negra como a noite, nem por isso minimamente bela, que me seca as células e extorce delas toda a vida. Não, não toda, tem o cuidado de deixar alguma para que continue a sofrer, para que a dor continue a torturar-me. Pior que doze meses sem sentir os olhos fecharem-se em descanso, pior que doze anos sem sentir o paladar de um alimento, pior que doze décadas sem uma gota do líquido transparente pelo qual matam e morrem . Pior que tudo o que alguma vez tive o desprazer de sentir, e já senti muita coisa.
Sozinha na imensidão do nada, devastada por memórias e ilusões, continuo à espera do que nunca acontecerá.

13.5.12

que deus?


Criaturas perdidas, patéticas e miseráveis, procuram uma razão para a sua dispensável existência e choram as mágoas de quem não se importa. Procuram lógica, procuram motivo, e como a vida é nada mais do que um conjunto de coincidências com interligações não especificadas e, bem, estúpidas, procuram o que tanto necessitam no inexplicável. No que não pode ser contrariado por não poder ser afirmado. No invisível, no impercétivel, no inexistente, ou não?
É amor, é raiva, é paz e guerra, é o gelo e o fogo, é o tudo e o nada. 
Criado por meros mortais, escrito por meros mortais, adorado por meros mortais. Por meros mortais nascido e por meros mortais morto, talvez, um dia, quem sabe? Mas por agora vive nos corações de, na sua maioria, ignorantes criaturas que crêm no que lhes foi dito para crer, vêm o que lhes foi dito para ver e sentem o que lhes foi dito para sentir. Ensinadas a pensar por uma linha estreita e reta, é-lhes impossível não lhes passa sequer pela mente - conservada como uma rosa constituída apenas por pétalas num invólucro de cristal - desviar-se do caminho de tijolos azuis e brancos, atirar-se de cabeça para um outro caminho, cair noutra hipótese ou facto depois de incontáveis cambalhotas.
Não, não, porque a sociedade sem escrúpulos e maleada de forma a não questionar os valores inevitáveis a que é submetida.
Questionar, questionar, questionar. Faço-o e continuarei a fazê-lo enquanto este mundo não me decidir dele expulsar.


12.5.12

lost inside myself


Caminho apressada por um caminho escuro e estreito enquanto o terrificante Mundo das Sombras me tenta sugar para uma distinta realidade, no entanto, tão próxima. 
Arrasto, com as forças que ainda não me abandonaram (ao contrário de todos os que um dia me prometeram a eternidade) o manto por mim costurado, com a seda das ilusões, o algodão do desespero e a lã - sabem, aquela lã que nos pica a pele, mas nos aquece o corpo? - dos vícios, cozido com uma agulha fina de ponta redonda e fio de açúcar em pó.
Arrasto o peso que carrego com a repulsa que sinto a fazê-lo escorregar das minhas costas. Uma nuvem cobre-me o corpo em que fui presa injustamente.
Eu não pedi este sofrimento constante nem este coração maltratado. Não pedi ser um feto no colo de uma mulher que nunca me quis. Não pedi ser a rapariga que todos odeiam incluindo ela mesma, não pedi nenhuma das cicatrizes no meu corpo enfraquecido. Não, eu não pedi ter nascido. Agora só uma coisa peço e só uma coisa quero, só há uma coisa que busco, o fim, talvez o início, o nada.
Arrasto-me por um mundo que não é o meu e lágrimas cortam-me o rosto. Mais afiadas do que as minhas próprias lágrimas, atormentam-me e aprisionam-me no ser desprezível que sou e nunca deixarei de ser.
E ao chegar ao fim, ao precipício porque tanto lutei, ao fosso sem fundo, ao poço escuro no qual expulsarei do meu organismo o último suspiro de vida... Quando chegar ao fim... Interrogar-me-ei porque razão a idiotice das pessoas é tão acentuada que chegam a inquirir-me se pensaria duas vezes.

5.4.12

ugly


Estou tão cansada da imagem que o espelho me devolve quando o olho. Estou tão cansada da repugnância que sinto quando me vejo refletida em qualquer superfície - no computador quando estou em chamadas de vídeo, num vidro no qual descem gotas de chuva apressadas, numa piscina de água de um azul quase transparente que ondula como os meus pensamentos ao ver-me - que o meu sorriso, se existir, é-me brutalmente arrancado da face e atirado para longe, para tão longe que já não o consigo ver. E depois perguntam-me o que se passa, se fizeram algo para me deixar assim, tão triste e distante, procurando o meu sorriso. Claro, pois. Eu, como egoísta e estúpida criança que sou, não podia ser infeliz sem atrair mais pessoas para a onda negra que as trevas lançam sobre mim e na qual me afogo.
Estou legitimamente cansada de não ter a liberdade de fazer o que gosto sem ser invadida por esta infelicidade, porquê? Porque para onde quer que olhe, tudo o que vejo é beleza, tudo o que vejo é aquela ideia de perfeição que uns admiram, outros tentam alcançar. Confiança, beleza, formas. Sinto a necessidade de baixar a cabeça, frustrada, magoada. 
Esta face persegue-me, este corpo assombra-me. Estes olhos escuros como a noite, boca seca como um deserto, estas mãos frias e braços magros, esta pele áspera e este formato que ninguém desejaria observar, muito menos possuir.
Estou cansada de ver beleza em tudo, exceto em mim.

4.3.12

dance with me


Sinto a bola nas mãos e o meu coração bate depressa. Endireita o polegar, arqueia as pernas, estica o braço, lança, tal como ele te ensinou.
Como pode uma pessoa viver para a emoção, quando se sente tão morta, tão fria? Como posso, de livre vontade, mexer-me vivamente quando por dentro estou tão morta? Como posso chorar em silêncio e fingir curtos sorrisos, quando estou a cair num abismo sem fundo?
Quem sou eu, que vagueio sonhadora à espera de um milagre? Quem sou eu, que me mostro esperançosa à espera de quem me salve?
Tudo o que vem, vai, e o que vai não volta. Porquê? Porque o que vai foi por uma razão, e razão para voltar não existe. Como pode algo que um dia significou o mundo, partir, tão de repente? Como posso eu ser tão vulnerável às mãos de quem me entrego?
Inúmeros e incontáveis pensamentos que me atingem como flechas enquanto os meus músculos se movem com a inquietude de um corpo sem alma. Tantas perguntas sem resposta que me são feitas só para me confundirem a mente e abrandarem o corpo.


Sinto a música percorrer-me o corpo e a graciosidade a invadir-me as veias. O meu corpo torna-se leve e flutuo ao som da melodia do amor.

dead roses


Hoje, desfiz as rosas que me ofereceste.
Desfi-las com cuidado, para não rasgar as suas frágeis pétalas, que guardei no meu quarto, enroladas em tecido vermelho, cor da paixão.
O seu aroma fora perdido, sabia-lo. Não cheiravam ao amor, só à solidão. Foi num ato de compaixão que as despi cuidadosamente, e olhei o seu núcleo, curiosamente.
O núcleo feio de uma rosa morta seria algo que ninguém quereria ver, certo? As primeiras pétalas de tão murchas estavam negras, e só depois de muita paciência ao arrancá-las, se chegaria à conclusão inevitável que se escondem pétalas ainda vivas, de cores belas e resplandecentes, que esperam alguém paciente o suficiente para as descobrir. Tantas picadas dos espinhos, tantos arranhões na pele, para quê? Para olhar algo morto e sereno, feio, escuro. 
Seria eu, também, uma rosa? Oh, que ridícula comparação. 
Afinal, quem quereria uma rosa com espinhos no lugar de pétalas?