17.3.12

desabafo secreto


Cresce dentro de mim um burburinho desatinado que me queima a alma e me contorna a alegria. Um segredo, que necessita de coragem por mim não possuída para ser revelado. 
Lembras-te daqueles dias? Conversas intermináveis que me punham a chorar, e uns escassos momentos depois faziam-me soltar gargalhadas sinceras, que há muito não soltava.
Estou-te grata. Estar-te-ei esternamente grata por teres entrado na minha vida, devagarinho, permitindo-me averiguar se te queria nela. Se realmente valia a pena arriscar-me a sofrer para te ter por um bocadinho que fosse na minha vida. É, valia. Valia porque eu precisava disso, oh, necessitava ardentemente de um amigo. Que não me julgasse pelas minhas ações ou pensamentos inconstantes, que não se sentisse aborrecido pela minha personalidade complexa e "tola" como muitos dizem.
Não esperava que um amigo (e nada mais do que um amigo) pudesse mudar a minha vida de maneira a que esta desse três voltas de trezentos e sessenta graus, de maneira a que me deixasse de pernas para o ar, vendo tudo de uma perspetiva diferente e levando-me a questionar o que tomava antes como certo.
E os meus glóbulos azuis, irrequietos, fazem-me sentir inútil... Mais pequena do que uma estrela que se vê ao longe numa noite de verão. Fazem o meu coração gelar ao relembrar-me que nunca significarei para ti uma milésima do que significas para mim.
Será egoísmo?


12.3.12

pequenos tesouros


Esta é a centésima publicação neste blog. Não, neste livro da minha mente, que partilho convosco.
Cento e trinta e nove comentários, noventa e um seguidores, sete mil e sessenta e quatro visualizações.
É com o coração cheio de orgulho que vos agradeço por tudo. Por lerem os meus textos, por deixarem as minhas palavras esvoaçarem até às vossas almas, por me apoiarem e me inspirarem, por me alimentarem os sonhos e fazerem crescer as minhas ambições. Enchem-me a alma de felicidade quando vejo um novo comentário ou visita, sabem? São pequenas coisas que me aquecem o interior e me dão a sensação de que, realmente, não estou sozinha, ou pelo menos não tanto como julgo. 
Obrigada. Obrigada por todos os sentimentos, emoções, gestos e palavras. 
Obrigada por acreditarem em mim.

Uma mão cheia de sorrisos para vós, meus queridos.

7.3.12

scars - cap. VII


Acordei de manhã com o nariz fungoso e lágrimas nos olhos. Logo que tento mexer um músculo, todos colapsam numa dor agoniante. Sinto uma toalha húmida na minha testa e vejo uma chávena de porcelana com um líquido quase transparente na minha mesinha de cabeceira.
Aproximo-o do nariz e depois levo-o aos lábios. Chá de camomila, bleh. Mas dadas as circunstâncias, não podia esperar que me fosse servido menta, o meu preferido, que a minha avó sempre me preparava em pequena, acompanhado das suas bolachinhas especiais...
Alguém fez soar um "toc, toc" na porta. Finjo-me adormecida e ouço um suspiro.
- Mafalda... Está aqui alguém para te ver.
Como não obteve resposta, a voz feminina encolheu os ombros (ou assim suponho, porque sempre o fazia) e saiu, deixando-me com, por dois segundos ou menos, o sentimento de culpa que me era incumbido sempre que a ignorava.
A porta é aberta novamente, devagarinho.
- Mafalda? Mafalda, está a dormir? - ouvi um sussurro.
Reconhecendo aquela voz familiar e doce como o mel, levanto-me de um salto.


Ao ver os seus doces olhos tornarem-se enormes, surpresos e felizes por me ver, apresso-me a chegar até ela e peço-lhe que se deite de novo. Beijo-lhe a testa quente e ela puxa-me para os seus lábios para que os meus sintam um beijo ainda mais ardente do que o da passada noite. Oh, o sabor dos seus lábios nos meus leva-me à loucura, mas tenho de nos separar carinhosamente, acariciando-lhe a face macia e bela.
- Estás melhor?
- Como assim? Acabei de acordar... - ela não parecia fazer ideia do que se passava.
Ri-me. Disfarçadamente ergui os cantos da boca mas depois não me consegui controlar, e ri. E ela sorriu, apaixonada, ao ver-me rir. Oh, como sentia saudades deste sentimento...
- Acho que ficaste constipada depois do banho de ontem - tento controlar o riso - são oito da noite.
- O QUÊ? - ela mostra-se triste, envergonhada e zangada, não faço ideia porquê. Acho que ela percebeu a dúvida na minha expressão - Perdi um dia inteiro contigo? - E sorriu.

4.3.12

s(he's) br(ok)en


Não me submeterei de novo aos teus testes, não. Não quero ser amada pela metade nem abdicar das pequenas coisas que me fazem feliz. Espero por ti, sempre esperei, espero para que te abras comigo, como uma flor silvestre ao céu matinal. Não correspondo às tuas expetativas? Não o pretendo fazer, já não. Não me voltarei a magoar ou a empurrar para o abismo, não quero voltar a chorar por ti.
Esperarei por ti mil primaveras e as restantes da minha existência. Esperaria pelos teus beijos sóis sem fim, espero que me protejas, que me abraces junto a ti.
Quero sentir-me protegida sem estar enjaulada, quero sentir-me livre mas ser dependente de ti. Que turbilhão de sentimentos se forma no meu coração, que furacão me desorganiza as ideias, que anormal realidade me leva à loucura! Com que direito me fazes isto, com que direito manipulas os meus sentimentos? Que direito tens tu de possuíres o controlo da minha, tão vulnerável, felicidade?
Oh, como te odeio.
Oh, como te amo.

dance with me


Sinto a bola nas mãos e o meu coração bate depressa. Endireita o polegar, arqueia as pernas, estica o braço, lança, tal como ele te ensinou.
Como pode uma pessoa viver para a emoção, quando se sente tão morta, tão fria? Como posso, de livre vontade, mexer-me vivamente quando por dentro estou tão morta? Como posso chorar em silêncio e fingir curtos sorrisos, quando estou a cair num abismo sem fundo?
Quem sou eu, que vagueio sonhadora à espera de um milagre? Quem sou eu, que me mostro esperançosa à espera de quem me salve?
Tudo o que vem, vai, e o que vai não volta. Porquê? Porque o que vai foi por uma razão, e razão para voltar não existe. Como pode algo que um dia significou o mundo, partir, tão de repente? Como posso eu ser tão vulnerável às mãos de quem me entrego?
Inúmeros e incontáveis pensamentos que me atingem como flechas enquanto os meus músculos se movem com a inquietude de um corpo sem alma. Tantas perguntas sem resposta que me são feitas só para me confundirem a mente e abrandarem o corpo.


Sinto a música percorrer-me o corpo e a graciosidade a invadir-me as veias. O meu corpo torna-se leve e flutuo ao som da melodia do amor.

dead roses


Hoje, desfiz as rosas que me ofereceste.
Desfi-las com cuidado, para não rasgar as suas frágeis pétalas, que guardei no meu quarto, enroladas em tecido vermelho, cor da paixão.
O seu aroma fora perdido, sabia-lo. Não cheiravam ao amor, só à solidão. Foi num ato de compaixão que as despi cuidadosamente, e olhei o seu núcleo, curiosamente.
O núcleo feio de uma rosa morta seria algo que ninguém quereria ver, certo? As primeiras pétalas de tão murchas estavam negras, e só depois de muita paciência ao arrancá-las, se chegaria à conclusão inevitável que se escondem pétalas ainda vivas, de cores belas e resplandecentes, que esperam alguém paciente o suficiente para as descobrir. Tantas picadas dos espinhos, tantos arranhões na pele, para quê? Para olhar algo morto e sereno, feio, escuro. 
Seria eu, também, uma rosa? Oh, que ridícula comparação. 
Afinal, quem quereria uma rosa com espinhos no lugar de pétalas?

3.3.12

happiness?


Momentos raros de inquebrável felicidade, forte como o aço, frágil como uma pluma. 
São, em lábios rosados e carnudos, concentradas a inocência e a instabilidade da mente humana. E é através deles que o coração se manifesta, quando o seu tamanho não é suficiente para albergar a explosão de energia que ocorre dentro dele. Energia positiva, sim, que um coração mutilado e em sofrimento não entende nem conhece, mas que o faz acreditar que todas as cicatrizes estão curadas. Oh, que inocência, que ingenuidade da sua parte!
Não, coração, não te habitues à felicidade. Aproveita-a enquanto te consome, mas não te agarres a ela, não esperes que ela te acompanhe  em todas as batidas. Sabes como é, sabes como somos: somos fracos, coração, e no entanto tão fortes, mas ambos sabemos que em breve toda a felicidade se voltará a desfazer em pequenas gotas, que me escorrerão pelos meus olhos negros, que me queimarão, de novo, a face. Não quero voltar a ter-te nas mãos, não quero sentir o sangue carregado de pesadelos, não quero ter de voltar a coser os mais pequenos pedaços do teu ser. Não quero voltar a sofrer, nem a fazer-te sofrer, porque não mereces isso, não depois de tudo o que passaste, depois de tudo o que passámos...
Vou ter cuidado, coração. Vou olhar por ti e proteger-te com a minha vida. Só te peço que sejas forte, meu coração, e eu serei também. Aconchega-te aí dentro e não te voltes a abrir. Não voltes a confiar, porque tudo parte, tudo se vai. Limita-te ao que temos e esquece o mundo.
Por ti, por mim, por nós.